Fios de Choro no Violino de Wanessa Dourado

Atualizado: 20 de Ago de 2020



Conheci a Wanessa Dourado no I Festival de Choro de Ilha Bela em 2019, no mesmo dia em que conheci a Jeanne de Castro (produtora) e a Dani Bruder (cantora e organizadora do festival) que aparecerão por aqui em outros posts. Após os shows da noite quando ela acompanhou a Dani Bruder e eu participei no show do Hércules Gomes, conversamos um pouco e trocamos contato. Comecei a acompanhar seu trabalho e a convidá-la para meus projetos.


Numa conversa online, ela me contou um pouco da sua trajetória e sobre os desafios de ser uma instrumentista mulher no choro.


Formação clássica, mas não muito...


Wanessa é um daqueles exemplos claros de como o choro se posiciona entre o erudito e o popular. Foi Spalla em um dos muitos festivais que participou, tocou (e toca) em orquestras. Mas revela que a música veio de forma intuitiva já do berço, ou melhor, do púlpito da igreja evangélica que sua família frequentava.“Meu pai era maestro de coral. Então eu já cresci num ambiente onde meus pais cantavam, meu pai tocava baixo, minha mãe tocava guitarra, tudo de ouvido. Com 3 anos de idade eu já cantava e com sete a minha pira era decorar as vozes de cada naipe e depois ensinar os cantores.”


Aos 15, ingressou na EMESP, formalizou os estudos, aprendeu repertório e ajeitou a técnica. “Eu era toda tortinha, tinha muita coisa pra arrumar. Abriu minha cabeça.”


Em Genebra, 2012.

Todos na família são musicais e apoiaram seu desejo de se tornar concertista, o que teria o ápice com a realização de um sonho: completar os estudos na Europa. “Eu e muitos amigos queríamos ser solistas de orquestra na Europa.” Viena, Berlim... Nessa época ela estudava 10 horas por dia e nem queria ir para escola. Sua mãe reclamava: “Pára de estudar e vai comer alguma coisa”.


Em 2012, Wanessa foi a Genebra. Eram 180 violinistas, 5 vagas. Foi a 3a suplente. Voltou ao Brasil e foi chamada, mas percebeu que sua ida foi um impulso mal planejado tanto financeiramente quanto do ponto de vista da realidade do imigrante. E o ambiente erudito já havia provocado algumas decepções. Enfim, Genebra perdeu um grande talento. Sorte a nossa.


Entrou em contato com o violino popular e o choro na época da Faculdade Cantareira, que cursou por 3 anos. Estudou com os violinistas Nicolas Krassik e Ricardo Herz, com a pianista Silvia Góes e o flautista João Poleto, com quem iniciou os estudos de Choro.


“Se o choro tivesse sido protagonizado só por mulheres desde o início, seria o que é hoje? O som das mulheres a gente não presenciou historicamente.”

Fios de Choro


O quarteto Fios de Choro nasceu numa viagem a Salvador no melhor estilo hippie. Era um trio, Choro, Amor e Vela e depois, de volta a São Paulo, chegou o cavaquinho.


Além da produção musical coletiva, o grupo inclui elementos de outros ritmos brasileiros, especialmente pernambucanos fruto de 3 jornadas que o grupo fez a pernambuco para pesquisar e vivenciar a música e a cultura e incorporar esses elementos.


Um dos mestres que parece ter aprovado a mistura foi professor Marco César, bandolinista pernambucano, com quem estiveram em Recife. Isaías Bueno é outro grande mestre que fará participação no próximo álbum do quarteto.


Allan Gaia Pio, Wanessa Dourado, Marco César, Lincoln Pontes, João Pellegrini no Paço do Frevo, Recife PE

“Eu venho de uma geração ansiosa que quer estudar tudo e o violino não faz parte da formação tradicional de choro. Por isso não conseguíamos nos enxergar fazendo algo tradicional, porque existem outras coisas que podem dialogar.”


Lugar de Mulher é no Choro

Entretanto, ela percebe que algo não vai bem nas rodas e nos palcos: “Eu vou ouvir um choro e é uma composição masculina, executada por homens. O ambiente é muito masculino. Eu não me sentia adequada e quis entender as questões culturais e os processos internos.”


A presença feminina no choro, tema deste site, nem sempre é bem-vinda e como é horrível ver uma menina ‘expulsa da roda’. Muitas vezes, o desconforto chega à manifestação física, leva à ansiedade, a crises pânico. E não é só no choro, não. Está nas orquestras, na música instrumental: "No último ano, estive conversando com várias instrumentistas que percebem as mesmas coisas. E no choro é mais evidente. Nas rodas, você vê um monte de homem errando e está tudo bem, mas se é mulher tem que tocar perfeito. Se não tocar perfeito tem que procurar outra roda.”


Flier da 1a Roda de Mulheres

Roda de Mulheres

“Ir às rodas é essencial”, ela afirma. Mas qual roda? Ela acredita que é preciso construir o som das mulheres no choro e sair desse lugar historicamente abafado: “Se o choro tivesse sido protagonizado só por mulheres desde o início, será que o choro seria o que é hoje? Porque o som das mulheres a gente não presenciou historicamente.”


"Existe um medo de chegar, de ser rejeitada, de errar, por que é um ambiente muito opressor."

Wanessa me convidou para cantar na primeira Roda de Mulheres que aconteceu na Casa Barbosa em Março deste ano. Foi mesmo muito especial! Me senti inserida, acolhida, abraçada pelas meninas que ali estavam fazendo um som e compartilhando seus talentos. Continua, depois que passar o perigo do Coronavírus com encontros que antecedem às apresentações. “A minha ideia é montar ensaios de choro coletivos, de mulheres no choro. Podem chegar homens? Podem. Mas seria um espaço de estudo. Até esse processo com os Fios de Choro eu fiz só com homens. As mulheres precisam desse apoio umas das outras. Eu vejo que em algumas mulheres existe um medo de chegar, de ser rejeitada, de errar, porque é um ambiente muito opressor. O ensaio é também pra gente se estimular. E seria uma escola para mim”

João Pellegrini & Wanessa Dourado

Durante a quarentena ela compõe, estuda, ministra aulas de violino e estrutura trabalhos futuros. Domingos às 15hs, faz o Som de Domingo em duo com o João Pellegrini transmitido pelo Instagram e Facebook. Acompanhem.



Outras Meninas por Wanessa Dourado


E já que a proposta é divulgar e agregar, Wanessa dá a dica. Ouça também o trabalho destas meninas.


Raíssa Anastásia https://www.youtube.com/watch?v=W1hmztVTnh4


Tahyná Oliveira https://www.youtube.com/watch?v=nLIELfnO_j4


Choronas https://www.youtube.com/watch?v=wA9tUYS4sc4

Cibele Palopoli https://www.youtube.com/watch?v=yLK3iK8pNnk


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